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Tanques e caças viraram museu: o Brasil ainda não percebeu?

Drones, mísseis e a nova guerra: enquanto o mundo muda de doutrina militar, o Brasil aposta bilhões em caças Gripen e entrega o controle da Avibras ao grupo J&F, dono da JBS

Tanques e caças
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Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, muita gente ainda achava que guerra moderna era sinônimo de tanque avançando, caça riscando o céu e porta-aviões projetando poder. Quatro anos depois, com o Oriente Médio em polvorosa após o ataque dos EUA ao Irã, essa imagem já não segura mais. A Ucrânia mostrou o caminho: enxames de drones baratos, muitos deles descartáveis, atingindo refinarias, depósitos de combustível e infraestrutura logística russa a milhares de quilômetros de distância. Em julho deste ano, um desfile militar em Kiev colocou lado a lado veículos autônomos, drones de ataque e interceptadores, com caças F-16 quase como coadjuvantes. O símbolo era claro: a era do blindado como protagonista está acabando.

Drones e mísseis: a doutrina que a guerra real já provou

O motivo é econômico antes de ser tático. Um tanque ou um caça custa dezenas de milhões de dólares, exige manutenção cara e décadas de vida útil pra justificar o investimento. Um drone de ataque custa uma fração disso e pode ser produzido em escala industrial em semanas. A Ucrânia hoje fabrica milhões de unidades por ano. Não é papo de blog: virou doutrina militar declarada em vários países, inclusive documentos internos do próprio Exército brasileiro já citam a tendência.

E é aqui que a pergunta incomoda: por que o Brasil segue investindo pesado em caças de geração 4.5, os Gripen, enquanto discute engavetar o fortalecimento de mísseis e drones nacionais? O contrato do Gripen, fechado em 2014, já consumiu cerca de US$ 3 bilhões, e o Brasil recebeu só 10 das 36 aeronaves prometidas. A própria Força Aérea admitiu à Câmara dos Deputados que 36 não bastam, o ideal seria o dobro, 66 unidades. Enquanto isso, os Estados Unidos já testam o F-47, de sexta geração, e a China acumula protótipos do J-36, também de sexta geração, com rumores de início de produção em pequena escala em 2026. O Brasil, portanto, investe bilhões pra chegar numa tecnologia que as duas maiores potências militares já classificam como intermediária.

Avibras, JBS e o submarino que ninguém financia

Do outro lado dessa equação está a Avibras, fabricante do sistema de foguetes Astros e do míssil de cruzeiro MTC-300, reconhecida como Empresa Estratégica de Defesa. A empresa quase morreu: entrou em recuperação judicial em 2022, acumulou R$ 600 milhões em dívidas e viveu uma greve de mais de três anos. Só retomou produção em maio deste ano. Há poucos dias, em 21 de agosto, veio a notícia que muda o tabuleiro: a J&F, holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista, também donos da JBS, fechou a compra de 100% do controle da Avibras, através de um veículo pessoal chamado Globe Investimentos.

Não é um detalhe qualquer. A mesma JBS, através da subsidiária americana Pilgrim's Pride, fez a maior doação individual registrada para o comitê de posse de Donald Trump, US$ 5 milhões, superando até Amazon e Google. Junte isso à proximidade pessoal de Joesley Batista com a Casa Branca, documentada em reuniões e negociações recentes. Fica uma pergunta em aberto, e friso: é pergunta, não acusação. Faz sentido uma empresa estratégica de mísseis brasileira ficar sob controle de um grupo com vínculos tão próximos ao governo americano? E se a estratégia for reerguer a Avibras só para revendê-la, daqui a alguns anos, a um comprador estrangeiro?

Enquanto isso, o projeto que realmente daria autonomia estratégica ao país segue travado por falta de dinheiro. O submarino de propulsão nuclear Álvaro Alberto, que colocaria o Brasil entre pouquíssimos países com essa tecnologia, já consumiu R$ 40 bilhões desde 2008 e acaba de ser adiado outra vez, agora para 2037 ou 2038. A Marinha pediu apenas R$ 1 bilhão a mais em 2026 pra não parar o projeto e não conseguiu.

Daí a reflexão que fica: será que trocar parte do investimento em caças por mísseis, drones e aceleração do submarino nuclear não seria mais eficiente e mais barato? E, nesse novo tabuleiro, faria mais sentido para a soberania nacional ter uma indústria de mísseis como a Avibras sob controle estatal, em vez de nas mãos de um grupo privado com interesses e alianças fora do país? Não tem resposta fácil. Estatal também tem histórico de atraso e ineficiência, o próprio submarino nuclear é prova disso. Mas entre gastar bilhões em caças que já nascem defasados e fortalecer tecnologia de mísseis e drones que a guerra atual está provando ser decisiva, o debate merece sair da sombra.

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